Movimento Negro e Marcha da Maconha- A importância dessa Relação

Por Anderson Rodrigo*.

Mais de um século após a abolição, o povo negro continua sendo perseguido pela polícia tal qual era pelos capitães do mato. A população negra continua recebendo os menores salários, tendo acesso precário à educação, saúde e outras políticas públicas.

Este conjunto de desigualdades entre negros e brancos o movimento negro brasileiro denuncia como o genocídio da população negra que atinge principalmente nossa juventude e que tem na sua face mais cruel o extermínio direto da juventude negra seja pelas forças de repressão do Estado, seja pelo crime organizado.

Dentro deste quadro de genocídio a criminalização do uso de drogas, com seu produto direto que é o comércio ilegal das drogas representa uma arma fundamental para manutenção da hegemonia das elites escravocratas em nossa sociedade.

A criminalização das drogas é usada como forma de criminalização da pobreza e de negras e negros. São pobres e negros as principais vítimas desta “guerra às drogas”.

As crianças negras que são recrutadas para o tráfico e executadas pela polícia são exemplos reveladores do caráter racista desta política de combate às drogas. São jovens negras e negros a maioria dos presos por tráfico. Pertencem a negras e negros a maioria das casas invadidas ilegalmente pela polícia todos os dias. Sob o pretexto de combater as drogas e o crime organizado, nossas comunidades são invadidas diariamente pelas forças de repressão do Estado que aterroriza nosso povo e o mantém num estado constante de terror e medo.

O racismo permanece em nossa sociedade, porque há uma elite que domina a sociedade e se beneficia diretamente dele. Da mesma forma, estas elites não querem a legalização das drogas, pois além de boa parte dela manter relações estreitas com o tráfico, a “guerra às drogas” as beneficia diretamente, pois é este um dos meios mais eficazes que estas elites possuem de controlar militarmente negros e pobres, em geral.

A proibição vitima nossa juventude não só pela violência que está associada a ela, mas também porque a criminalização dos usuários dificulta ou até mesmo impede a busca por tratamento adequado dos dependentes químicos. Os males causados pela proibição são muito maiores que aqueles que qualquer droga pode causar a um indivíduo. A criminalização das drogas mata muito mais que qualquer droga. Esta guerra só faz sentido para as elites, estas sim, livres para usar qualquer droga dentro de seus condomínios luxuosos, enquanto nosso povo é constantemente atacado em seus direitos mais básicos, sofrendo humilhações e agressões muitas vezes pelo simples motivo de levantar “suspeitas”, ou seja, por ser negro.

O comércio ilegal de drogas é uma atividade que gera bilhões de dólares em todo o mundo. É óbvio que por trás de toda esta cadeia de crime organizado, estão bancos, grandes indústrias, políticos, juízes etc. No entanto, os presos por tráfico são quase sempre, negros e pobres, apontados como grandes chefes do crime.

No passado, as proibições da capoeira, do maracatu e de nossas religiões eram usadas como forma de controlar e criminalizar nosso povo. Hoje, a proibição das drogas cumpre este mesmo papel.

Por isso que no próximo dia 20 de maio a juventude negra pernambucana deve participar da Marcha da Maconha em Recife. Por entendermos que a constituição de uma nova política sobre drogas que leve ao fim do tráfico é parte do combate permanente que temos que travar contra o genocídio da juventude negra.

*Anderson Rodrigo é Militante do Movimento Negro Unificado e do Fórum de Juventude Negra de Pernambuco

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